Os reflexos de mais de duas semanas de guerra no Oriente Médio atingem diretamente o setor produtivo brasileiro, com foco crítico no Rio Grande do Sul. O estado, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, enfrenta um cenário de escassez de óleo diesel e escalada nos preços justamente no período de colheita da safra de verão. Entre março e abril, a demanda pelo combustível atinge seu pico, e a dificuldade de abastecimento coloca em risco os grãos que ainda estão no solo.
O produtor rural Jairo Bueno relata que o custo do litro do diesel saltou de R$ 5,35 para R$ 8,00, além de enfrentar atrasos na entrega. Pedidos feitos aos Transportadores-Revendedores-Retalhistas (TRRs), responsáveis por levar o insumo ao campo, têm levado mais de uma semana para serem atendidos. Segundo Bueno, a preocupação é de uma falta generalizada: "Se o arroz não for colhido agora, ele vai ser perdido".
Crise logística e prioridade de abastecimento
A dificuldade de chegada do produto na ponta final da cadeia é confirmada pelo SindiTRR, sindicato que representa os transportadores retalhistas. Carlos Schneider, diretor da entidade, afirma que a procura nas distribuidoras disparou após o início do conflito no Oriente Médio, motivada pelo temor de desabastecimento global. Na fila de espera das refinarias e distribuidoras, postos de combustíveis e grandes empresas têm recebido prioridade, deixando os retalhistas que atendem os agricultores em segundo plano.
O cenário de escassez e alta de preços não se restringe ao Sul. A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás também manifestou apreensão com relatos de dificuldades no fornecimento. A análise de mercado indica que o temor geopolítico provocou um desmonte de operações de hedge, mas a pressão sobre os ativos de energia permanece elevada em todo o território nacional.
Disparada nos preços e reajuste da Petrobras
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) revelam que o preço médio do diesel na revenda subiu de R$ 6,15, no início de março, para R$ 6,89 no dia 8 — uma valorização de 12% em apenas uma semana. No Rio Grande do Sul, o aumento médio foi superior a 8% apenas na última semana. Somando-se à pressão internacional, a Petrobras anunciou, na última sexta-feira, um reajuste de R$ 0,38 por litro para as distribuidoras, o primeiro aumento oficial desde fevereiro de 2025.
