Governo buscará juro de um dígito no Plano Safra 2026/27

O ministro da Agricultura, André de Paula, afirmou que a prioridade deste ano para a política agrícola será reduzir os juros do crédito rural para os médios e grandes agricultores e pecuaristas no Plano Safra 2026/27. A meta é chegar a taxas finais de apenas um dígito e superar os R$ 516 bilhões ofertados em financiamentos na temporada atual.

Em entrevista exclusiva ao Valor em Xangai, na China, onde participa da sua primeira missão internacional à frente da Pasta, ele garantiu que há sensibilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de todo o governo federal com as dificuldades que o setor produtivo enfrenta neste momento. Para o ministro, há espaço para desfecho positivo na renegociação de dívidas rurais, um dos principais pleitos do setor atualmente.

“Eu percebo um elevado grau de sensibilidade do governo para essas dificuldades e uma disposição muito grande de trabalhar para que elas possam ser mitigadas”, disse. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado pode votar hoje o projeto de lei 5.122/2023, que autoriza a renegociação de dívidas rurais desde 2012 com recursos do Fundo Social do Pré-Sal, superávits de outros fundos e outras fontes do Executivo, juros reduzidos e dez anos para pagamento.

A avaliação do ministro é que o agronegócio brasileiro passa por uma “tempestade perfeita”, resultado do endividamento crescente, preços baixos de algumas commodities, juros altos e o impacto das guerras nas cotações dos insumos agrícolas.

Ciente das inúmeras demandas no momento, André de Paula afirmou que o corte nos juros será mais importante do que uma eventual expansão no montante de recursos ofertados.

“Isso [aumentar recursos] tem uma importância menor até do que assegurar juros que possam caber no bolso do produtor rural, que sofre com o endividamento, com as questões climáticas, com todos os desafios que são inerentes à atividade e até com as dificuldades internacionais, como os preços dos fertilizantes em alta em função da guerra”, disse ele.

Na temporada atual, que vai até o fim do próximo mês, as alíquotas para médios e grandes produtores variam de 10% a 13,5% ao ano. O recuo na Selic — ainda não no ritmo esperado pelo governo — pode abrir espaço para o corte nos juros finais aos tomadores de financiamentos, mas o ministro ainda não tem uma estimativa do quanto isso custará em termos de orçamento para a União. De Paula ressaltou, no entanto, que tudo tem um preço, mas que “governar é eleger prioridades” e ele não quer criar expectativas no setor.

“Torcemos para que essa seja uma das prioridades do governo. Esse é um momento de tanta expectativa, de tantos desafios, que eu não cometeria o erro de gerar uma expectativa que depois pudesse causar uma frustração. Não temos tempo para errar”, ponderou.

Segundo o ministro, a construção do Plano Safra é dinâmica, por envolver outras áreas do governo, e não há um número fechado até agora. O anúncio do plano para o período 2026/27 deve ocorrer até o início de julho. Ele citou também a intenção de apresentar avanços para o seguro rural e para as garantias aos financiamentos.

“Imaginamos que seja possível fazer um volume de recursos ainda mais expressivo e, repito, a questão dos juros é fundamental. Estamos trabalhando para juros de um dígito”, acrescentou.

O Plano Safra 2025/26 custou R$ 13,4 bilhões ao longo de vários anos. Uma eventual redução dos juros custará mais para o Tesouro Nacional conseguir equalizar a diferença entre o custo de captação dos bancos mais o spread e a taxa final cobrada do produtor. Em 2026, o orçamento é de R$ 18,9 bilhões para subvencionar operações a pequenos, médios e grandes.

Há menos de dois meses à frente do ministério, André de Paula tem buscado conhecer as lideranças do setor produtivo e ouvir as demandas delas para dar continuidade às pautas tocadas pela Pasta para “errar menos”, já que tem um período pré-definido e limitado de gestão até o fim deste ano. As agendas incluem conversas com integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), com quem o ministro busca maior aproximação devido ao seu perfil político.

“Nunca tive tanta clareza de que, como o período é curto, temos que errar menos. É fundamental envolvermos essa parceria, contribui muito para que possamos fazer mais. O momento é muito desafiador por uma série de fatores internos e até mesmo externos”, acrescentou.

O ministro disse ainda que em tempos de crise podem surgir soluções estruturais. “As grandes soluções surgem nos momentos de maior dificuldade, pois você tem necessariamente que ir além. Temos uma boa oportunidade de fazer algo diferente, de fazer algo novo”. Segundo ele, não existem apenas desafios, mas também avanços para comemorar, como as aberturas de mercados internacionais.

São 616 aberturas desde o início de 2023. Na última segunda-feira (18), o ministério anunciou as aberturas de caqui para a Costa Rica, amendoim sem casca para a Nicarágua, alimentos balanceados para aves ornamentais e alimentos balanceados para tartarugas para o México.

Questionado sobre o impacto das questões geopolíticas e embates comerciais sobre o agro nacional, o ministro disse que cabe ao setor produtivo manter a capacidade e qualidade para continuar ampliando seu espaço no mercado. “É claro que preferimos trabalhar com menos obstáculos, mas isso não faz parte da realidade. São fatores que independem da nossa vontade e que fazem parte do negócio. O Brasil precisa estar pronto para enfrentar isso. A minha visão é muito otimista”, salientou.

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