As oscilações recentes no preço do diesel têm aumentado a preocupação de produtores rurais da Zona Sul e da Campanha. Embora os valores tenham recuado após os picos registrados nas últimas semanas, agricultores, pecuaristas e arrozeiros afirmam que a instabilidade do combustível já provocou aumento de custos em diferentes etapas da produção.
O impacto é sentido desde a operação de máquinas agrícolas até o transporte da safra e a chegada de insumos às propriedades. Para o setor, a dificuldade não está apenas no valor do combustível, mas na incerteza sobre os custos que precisarão ser absorvidos nos próximos meses.
No interior de Bagé, o agricultor André Bordin calcula que gastou quase R$ 40 mil a mais apenas com o transporte da produção de soja em comparação à safra anterior.
— Temos as colheitadeiras, os tratores e os caminhões para transportar. Neste ano, isso teve um custo e um impacto que a gente não imaginava que iria vir para o nosso bolso — afirma.
Impacto vai além das lavouras
Em Sant’Ana do Livramento, o pecuarista Bruno Vasques relata que o aumento dos custos atinge não apenas a operação dentro das propriedades, mas também toda a logística envolvida na atividade.
— Gera entre 20% e 30% a mais de despesa apenas pelo uso direto do combustível. Além disso, há o aumento dos fretes por causa do diesel — diz.
Segundo ele, praticamente tudo o que chega ao campo depende do transporte rodoviário.
— Tudo que a gente precisa chega sobre rodas. Então tudo leva diesel, gasolina ou algum combustível.
A preocupação também envolve os insumos utilizados na produção agropecuária. Para o engenheiro agrônomo do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Igor Kohls, fatores geopolíticos e logísticos seguem influenciando os custos do setor.
— Praticamente todo o nosso adubo vem da região do conflito entre Ucrânia e Rússia. São fatores que geram uma incerteza para o produtor — explica.
Reflexos na produção de arroz
Na cadeia do arroz, uma das principais atividades agrícolas do Estado, o diesel representa um dos custos mais relevantes durante a colheita, o transporte e a preparação das áreas para a próxima safra.
Segundo o Irga, os custos relacionados ao combustível aumentaram cerca de 7% nesta safra, o que representa aproximadamente R$ 135 por hectare cultivado.
Produtor rural em Pelotas, Fernando Rechsteiner afirma que conseguiu reduzir parte dos impactos porque comprou combustível antecipadamente.
— Se eu tivesse sido obrigado a comprar todo o meu óleo diesel no pior momento dos preços, o impacto teria sido muito maior — relata.
Atualmente, o litro do diesel é vendido em torno de R$ 6,70 em Pelotas. Durante o período de maior pressão sobre os preços, chegou a ultrapassar R$ 8,30 em alguns postos da região.
Para Rechsteiner, a principal preocupação está voltada para o próximo ciclo produtivo.
— A próxima safra provavelmente terá um custo de óleo diesel superior. O setor não consegue absorver essa alta de custo — afirma.
Cenário gera incerteza
Mesmo com a redução dos preços em relação aos picos registrados recentemente, produtores afirmam que a instabilidade dificulta o planejamento financeiro das propriedades.
— Todo ano é um desafio para o produtor. Tem o clima e tem os custos que, de uma hora para outra, batem à nossa porta. E a gente não consegue controlar o preço do produto que vende — diz Bordin.
